Churrasquinho perigoso
- Não Amor, não, eu não posso (...) Meu bem, eu estou trabalhando (...) mais tarde eu vou lá (...) sim, eu sei (...) eu estava aqui, almoçando com a minha mãe (...) também te amo. (...) tchau!
E foi isso que ouvi da conversa daquela meu amigo, ao celular com sua esposa, enquanto almoçávamos numa sexta-feira. Eu não entendi porque ele disse que estava almoçando com a mãe, e não comigo. Aliás, conosco, estávamos em um pequeno grupo. Não entendi porque ele não revelou claramente que estávamos em nosso clássico e tradicional churrasquinho de sexta.
- Tchê, não sei bem porque, só não quis contar que estava comendo churrasco durante a semana.
Até hoje penso nesta resposta. E continuo sem entender.
Este meu amigo é um sujeito do bem. Sujeito boa praça, meio kantiano, não faz mal a ninguém. Bom pai, inclusive. Um pouco machista, é verdade. Mas, enfim, gente boa. Não entendia porque mentir a respeito de uma coisa tão irrisória e simples.
Não por isso, mas, acabamos nos afastando. Outro dia, soube, havia se separado. Não foi surpresa. Ela descobriu que ele não almoçava com a mãe, e não suportou.
Mesmo uma mentirinha boba, inocente, irrelevante, quando descoberta, nos coloca em dúvida, sobre o quanto podemos confiar ou não nas pessoas. Especialmente no ambiente profissional, prefiro um sincero "não sei", do que uma resposta falsa, ou imprecisa.
Mesmo que a pergunta seja irrelevante. Mesmo que seja sem propósito, mesmo que seja idiota. As respostas, as convicções, a segurança, constroem credibilidade e reputação, inclusive nas respostas mais simples.
A separação do meu amigo não foi por traição, não foi por uma briga feroz. Ele apenas tinha o hábito de não contar sobre o clássico churrasco de sexta-feira.
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