Palavras Mágicas
Algumas vezes esquecemos a magia
que envolve algumas palavras, e alguns gestos.
Aprendi que, ao receber um
elogio, sobre algo que temos, sobre uma roupa, ou coisa do tipo, um carro, ou
outro objeto, devemos responder: “às ordens”. Mesmo que não esteja exatamente às
ordens, e mesmo que a pessoa não ouse pedir, de fato, o objeto de seu elogio,
trata-se de uma demonstração de generosidade.
Lembro também quando meus pais me
ensinaram que sempre, ao entrar na casa de alguém, pedisse “com licença”. Estávamos na praia. As orientações não saíam
da minha cabeça, e naquele mesmo dia na casa de um dos “guris” da rua, e não
hesitei, entrei e soltei um: “- Por favor?”. (Ou “obrigado”, não lembro bem). Ainda
hoje, quando lembro dou risada sozinho.
Outra coisa que as pessoas
perguntam é como você está. Perguntinha mais capciosa. “Bom dia, como você
está?”. Não restam dúvidas, a resposta será: “Tudo bem, obrigado. E você?”.
Fiquei aqui pensando quantas
coisas falamos no dia-a-dia, que são meramente formalismos, necessários
formalismos, mas, apenas isto. Fiquei imaginando se acabássemos sendo literais
nas respostas a estes indicativos, a estas formalidades.
Imaginem: “- Bonito casaco”. “- Às
ordens!”. “- Tira! Quero já!”.
Ou então: “- Obrigado”. “- Tens
que agradecer mesmo, e pagar, porque isso me deu um grandessíssimo trabalho”.
Quem sabe ainda: “- Com licença?”
“- Não, não dou licença, agora estou ocupado”.
Finalmente, o derradeiro: “- Bom
dia, como está?”. “- Olha, na verdade, estou bem, mas tem coisas no mundo que
me preocupam, problemas no país que me incomodam, e dúvidas da humanidade que
me intrigam. Estou mais cansado, mais velho, mais chato, então, na verdade, não
sei se está tudo bem, afinal, blá, blá, blá – duas horas depois – apesar disto,
estou bem sim”.
Fico imaginando se nosso mundo
fosse sem esta retórica fundamental. Fico imaginando se fôssemos literais. Algo
como “tolerância zero”. Acredito que não seríamos muito agradáveis. Vivemos numa certa “esquizofrenia” coletiva, bem
verdade, nos enganando reciprocamente, fingindo pedir licença, ou dar licença; escondendo nossos problemas, nossas tristezas. E isto é absolutamente
necessário para a vida em sociedade. Isto é a magia, este é o eco subliminar
das nossas relações. É isto que nos diferencia das demais espécies.
Tudo começa com estas poucas palavras mágicas, símbolos de preocupação e
cuidado: “Por favor”, “com licença”, “bom dia”, “obrigado”. Nada como um
pouco de cortesia e gentileza, mesmo que, eventualmente, de mentirinha.
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