Desistência Cruel
Ele encheu a banheira com água
bem quente. Havia comprado, especialmente para ocasião, um sabonete líquido à
base de glicerina e mel. Associado às velas aromáticas, de longa duração, pretendia
impedir que o cheiro de sua morte se espalhasse pelo prédio. Ritualisticamente
se despiu, imergiu lentamente. A bossa
nova tocava ao fundo. Gostava de rum. Gole por gole foi tomando, um a um,
os comprimidos que fariam com que dormisse tranquilamente, para nunca mais acordar.
O parágrafo acima é fruto da
minha imaginação. De real, apenas a triste notícia de que, hoje, um de nossos
clientes optou por encerrar sua própria vida. Não sei como foi. Não tenho
grandes notícias. Não é algo que se divulgue. Ninguém sabe ao certo.
Funcionário público. Estabilizado. Sem maiores preocupações. Simplesmente
decidiu deixar a vida.
Haja coragem para cometer
suicídio, dirão alguns. Pois julgo a maior covardia! Ora, quem sou eu para
julgar. Retifico-me. Penso que causar a própria morte seja o ato desesperado de
quem já não suporta enfrentar a vida. E
viver também é entristecer-se, também é frustrar-se, também é se machucar,
sofrer. Nem todos conseguem suportar a dor de viver. Sim, porque dói. Mas, nem
sempre.
Não há o sorriso da criança, sem
a dor do parto. Tampouco, o carinho do unguento, sem a queimadura da pele. Não
haveria o conforto do calor, sem a aspereza do frio; ou a alegria da conquista,
sem o esforço da caminhada. Tampouco, haveria a lágrima de um reencontro feliz,
se não houvesse a solidão da saudade.
Talvez, haja desígnios além de
nossa compreensão. Todavia, é triste saber que alguém desistiu de forma tão
definitiva. Tão desesperada. Tão cruel.
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