Incondicionalidade
Qualquer relação que iniciamos, vem sempre cheia de expectativa, cheia de esperança. Não importa se é no campo afetivo, ou profissional; tampouco, importa se é uma relação amorosa, de amizade, ou mero coleguismo. Em todas as relações positivas que iniciamos, permeia-nos a esperança de que todas as nossas expectativas sejam atendidas.
Um profissional brilhante, com decisões firmes e coerentes, comprometido, que não erre, e seja entusiasmado e leal por todos os longos anos em que trabalhar por aqui. O amigo fiel, companheiro, parceiro de churrascos, e de momentos de solidão. A esposa recatada, discreta, boa mãe, mas, avassaladora entre quatro paredes, sob os lençóis; excelente cozinheira, elegante, independente, ou dependente, enfim. Os filhos, claro, muito bem educados, bons alunos, obedientes. Que façam suas orações antes de dormir, e, as filhas, especialmente, mantidas virgens para todo o sempre.
Pois bem. Seu colega de trabalho, aquele estupendo profissional, irá lhe decepcionar. Seu velho e bom amigo, também. Sua esposa e seus filhos irão lhe magoar profundamente. Assim como seus pais e irmãos. Não há chance, e não tem jeito. As pessoas vão nos magoar, vão nos machucar, nos decepcionar, nos frustrar.
O problema é que, com a mais absoluta e franca certeza, você magoará também todos os seus amigos. Irá frustrar algumas vezes seus colegas e seus parceiros. Irá decepcionar profundamente sua família. Especialmente seus pais, de quem, provavelmente, você receba o amor mais incondicional possível. Não tem jeito, em algum momento, você irá partir o coração de alguém, com os mais perversos requintes de crueldade.
Isso acontecerá com todos, com maior, ou menor gravidade. Não há como partir desta vida sem uma porção de cicatrizes. E as mais profundas, as maiores, serão causadas por quem conseguiu estar mais perto. Estas cicatrizes estarão na nossa alma. Cicatrizes que causamos, e que sofremos. Como diria meu amigo Márcio (Ailto Barbieri Homem): "quem disse que precisamos voltar com nossas almas intactas"?
Se tudo isso é verdade - inexorável verdade - como podemos condicionar nossas relações ao fato de não sermos magoados? Como podemos impedir as pessoas de nos frustrarem, de ocasionalmente nos entristecerem, se esta é uma certeza prévia? Mantemos nossos pares sob a sombra de uma pesada espada na medida em que condicionamos nossa reciprocidade à uma conduta absolutamente perfeita, ou adequada às nossas expectativas. O que é uma imensa ingenuidade, no mínimo.
Embora não seja fácil, penso que um grande e virtuoso propósito seja o da relação incondicional. Estaremos juntos. Não importa se com o coração partido, estaremos juntos. Não importa se me decepcionares, estaremos juntos. Frustrados. Estaremos juntos. Cuidando de nossas feridas. Amparando-nos.
Não importa se você é meu amigo, meu irmão, meu pai, minha mãe, minha esposa, meu colega. Eu lhe autorizo a me magoar! Esteja previamente perdoado, porque, nestas relações de incondicionalidade, o perdão é presumido. Sei que vai doer. Sei que vai sangrar. Mas, vai passar. Preciso mais de você, do que sua capacidade de me fazer sofrer. Preciso de você para me erguer, para me curar. E estarei aqui para lhe estender a mão, sempre.
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