Divórcio Corporativo
Não havia um só dia em que eles
não discutiam. Não importava por qual motivo. A ironia transformava-se em
ofensa. Da ofensa à agressão – verbal, apenas. Ela chorava em silêncio. Ele se
refugiava no distanciamento. Não havia mais carinho, mais cumplicidade. A
presença do outro causava incômodo, asco. Não havia mais nada do casal feliz
que, outrora, havia jurado amor eterno. O que havia em comum era o sofrimento,
apenas.
Os dias, todos, tornaram-se
cinzentos e pesarosos. Olhos permanentemente inchados, o aspecto sombrio e
abatido. Ainda assim, alguém enxergou seus olhos castanho-amendoados, por trás
da escuridão; alguém que lhe falava com doçura, com cuidado, com carinho. E
ela, claro, apaixonou-se. Por outro.
Não havia mais jeito, o casamento
se desfez.
Nas empresas, acontece a mesma
coisa. Equipes que não conversam. Agressões mútuas. Cobranças desproporcionais.
Pressão. Estresse. Sofrimento. Mais do que isto, o concorrente
assedia, estende tapetes vermelhos, flores, salários e benefícios. Vêm os “olhares
lânguidos de Capitu” em nossa equipe, e arrastam nossos melhores funcionários.
Completamente apaixonados.
O processo de demissão, de saída
de um colaborador, de um parceiro, resulta de algum tipo de “sofrimento” na
relação, ou de outra paixão. Quando ambos associam-se, o “divórcio” é
inevitável.
Seu funcionário só pedirá
demissão se receber uma proposta “irrecusável” de outra empresa, se estiver
apaixonado por outra empresa. Ou então, se você o tratar tão mal, e causar
tanto sofrimento, que ele não aguente e saia. Se alguém o convidar para “dançar”,
especialmente enquanto estiver sofrendo, ele vai dançar. E você também!
O inverso é verdadeiro. Alguns
colaboradores prejudicam tanto a empresa, e causam tantos problemas, e tanto
sofrimento, que não podemos mais mantê-los conosco. Por outro lado, às vezes,
surgem candidatos tão preparados, e nos entusiasmam tanto, que precisamos “abrir
espaço”. Nos “apaixonamos” por eles.
Tanto no casamento, quando nas
empresas, a fórmula talvez esteja na capacidade de cuidar mais do outro, do que
de si mesmo. Cuidar, proteger, ajudar, amparar, enfim, estar atento aos anseios
do parceiro, da esposa, da empresa, ou do funcionário. Mais com eles, do que consigo
mesmo.
Por outro lado, se for possível
que esta relação seja recíproca, e o parceiro, a esposa, a empresa, os
colaboradores também estejam atentos e preocupados conosco, aí, teremos
confiança, segurança e não haverá limites para produzir, para viver e para ser
feliz.
Preocupação recíproca. Tão
simples. Tão difícil.
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