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Mostrando postagens de janeiro, 2026

28 dias - Ídolos

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Meu filho, Aos poucos, vou te contando sobre algumas pessoas que fizeram parte da minha vida e que, de alguma forma, perto ou longe, farão parte da tua também. A vovó já te contou que eu nasci quando ela ainda era bem jovem. Mas mais jovem ainda era o “mano”, o irmão mais novo dela. Luiz Francisco. Assim como tu, o biso completou o nome do filho com o próprio nome. Não esquece: tu és tão Augusto quanto eu, por exemplo. Hoje, porém, eu quero te falar sobre o meu tio. Ele sempre foi um tipo de ídolo para mim. Não sou um homem de ídolos, embora admire algumas pessoas especiais. Ainda assim, ele acabou servindo como modelo, mesmo sem que ele ou eu soubéssemos disso. Morávamos a uma escadaria de distância. Ele é tão mais velho em relação a mim quanto tu és mais novo em relação ao teu irmão mais velho, o Brian. Não por acaso, sempre o chamei de “Mano”. Meu tio sempre soube conversar sobre tudo. Sempre entendeu um pouco de tudo e sempre foi muito habilidoso com quase tudo — pelo m...

29 dias - Primeira vez

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Meu filho, Um dia tu conhecerás o tempo e o vento. Porque sim, o tempo voa. Mas eu me refiro a O Tempo e o Vento , a obra de Érico Veríssimo. Um livro que atravessa três séculos contando a história do Rio Grande do Sul. Para os mais preciosistas, não se trata de um livro, mas de três: O Continente , O Retrato e O Arquipélago . Enfim, apenas uma lembrança das leituras mais do que obrigatórias dos vestibulares gaúchos. Mas veja meu descuido. Nem quero falar do tempo, nem do vento, nem da obra, nem do Érico. Quero falar, de passagem, é do Luiz. O filho do Érico. Luiz Fernando Veríssimo morreu há pouco, ainda esses dias. Era cronista. E eu adoro crônicas. Meus pensamentos são muito invasivos para ler ou escrever algo que vá além de poucas páginas. E o Veríssimo, filho, era um dos melhores. Um dia te contarei melhor, mas houve um tempo em que eu fui sócio de uma loja de conveniência, dessas que tu ainda vais espiar do vidro do carro, nos postos de gasolina. E lá estava o senhor Luiz Fe...

30 dias - Mesa das Crianças

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Meu filho, Ouça isso: — Aqui é onde vai ser o super posto de gasolina. — Certo, mas eu sou o dono do posto. — Tá bom. Eu fico com o mega hotel, ali depois desse morro. — Vamos subir um pouco mais essa rua? Pra deixar ela bem alta. — Tá bom. Olha, vou colocar isso aqui embaixo. — Legal. E se a gente emendar mais essas duas pistas aqui, vai ficar radicalmente alto. — Vou pegar meu Mustang GL preto. Espera que vou colocar nele as rodas do Porsche, que são muito mais largas. — Boa. — Mas e se a gente instalar asas no tanque de guerra? Aquelas asas de um avião bem grande. — Hum… acho que ele é muito pesado. Melhor hélices. Vou tirar do helicóptero e dar um jeito de colocar no teto do tanque. — Boa. Aí eu vou pegar o motor elétrico daquele carro vermelho, tiro o teto do tanque e coloco as hélices do drone. — Não podemos esquecer de colocar um paraquedas também. — Vamos fazer um lugar pra ele pousar em cima do posto de gasolina. — E daqui ele pode disparar contra o hotel. — Ma...

31 dias - Cartinha da vovó Maristela

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Meu querido neto Mateo Augusto, Tua vinda para este mundo é um verdadeiro presente de Deus, que, ao Seu tempo, decidiu qual seria o melhor momento para chegares até nós. Sempre estivemos te esperando, mas Deus tem um tempo diferente do nosso e também planos que ainda não conhecemos. Quando Ele decidiu que teu pai e tua mãe estavam prontos para te receber, decidiu te enviar, com Seus próprios propósitos, que nós, na nossa pequenez humana, ainda não compreendemos. O que sabemos, até o momento, é que te entregamos totalmente a Ele, nosso Deus Pai e Criador, e a Maria, nossa Boa Mãe, para que se cumpra tudo o que estiver a ti designado. Eu, como tua avó paterna, estou infinitamente feliz com a tua vinda. E já te digo o quanto amo filhos meninos, pela simplicidade e objetividade que trazem para uma família. Não por acaso, Deus me enviou três como filhos. Confesso que, de longe, eu já acalentava o sonho de ver teu pai um dia ser pai, pois conhecia bem esse desejo dele. Vou te contar algu...

31 dias - Cartinha do Vovô Aldo

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Querido neto, Faltam cerca de 30 dias para o teu nascimento. Atualmente estou com 72 anos e com grande expectativa pela tua vinda. Ontem, aqui na praia do Oásis do Sul, fiz a leitura de uma carta do teu pai, endereçada a ti, na qual ele conta um pouco das vivências com meus pais, o Vô Adroaldo, já falecido, e a Vó Teresinha, que atualmente está com 92 anos, lúcida, de bem com a vida e paparicada por filhos, netos e bisnetos. Fiquei muito emocionado ao perceber como o Fábio conseguiu expressar esses momentos familiares tão significativos. Ele tentava descobrir de onde vinha, projetando o próprio futuro com base naqueles que educaram o seu pai, o Aldo. O teu pai consegue expressar com palavras sentimentos que estão nas entrelinhas do texto, uma competência que vem da sua inteligência emocional, talvez inspirada por autores como Daniel Goleman ou Edgar Morin, e sempre iluminada pela palavra de Jesus Cristo, tão presente na nossa vida. Essa influência, certamente, também fará parte do t...

31 dias - Desordenado

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Meu filho, Hoje tu estás à flor da pele da mamãe. Eu fico aqui ao lado dela, tateando centímetro a centímetro aquela que, para mim, é a maior barriga de grávida do mundo, tentando entender ou enxergar, pelo relevo acidentado que provocas na barriga dela, que parte do teu corpo estamos tocando por sobre a pele da mamãe. Será que essa pontinha aqui são os pezinhos? Ou um cotovelo? O bumbum? A cabecinha? Mas, se for a cabeça… puxa, ela ainda não está formada. Temos que cuidar. Parece muito fácil tu te machucares, mesmo dentro da barriga. Tua mala já está pronta. A da mamãe também. Mas há, na minha visão, ainda um montão de coisas para fazer e para te dizer antes de tu vires, e eu não preparei uma única muda de roupa para passar dois dias na maternidade. Estivemos por lá, onde, em princípio, será a tua chegada, espiando se as coisas estão em ordem. Esta semana teremos mais um ultrassom. Mais uma consulta. Ainda estamos negociando com as médicas. Talvez antecipemos teu nascimento. Ta...

32 dias - Projeto (Escrito pela mamãe)

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Oi, filho. Hoje quem escreve é a mamãe. Saiba que eu não tenho o mesmo dom do papai, que escreve lindamente. Mas ontem ele disse que gostaria que o projeto das cartas escritas para você tivesse outras pessoas participando, como uma espécie de cápsula do tempo. Assim, quando você conseguisse ler, veria o amor escrito por todos ao seu redor. Então, vou me arriscar a escrever um pouquinho. Antes de você chegar, muitas coisas aconteceram, e você é um projeto de Deus em nossas vidas. Segundo o dicionário, “projeto” é um substantivo masculino que significa plano, desígnio, intenção ou esboço para realizar algo no futuro. É a descrição estruturada de um objetivo, um conjunto de atividades com início, meio e fim, pensado para alcançar algo específico. A mamãe vem de uma família muito simples, que sempre trabalhou muito para que não faltasse o básico: comida e um lugar para morar. Estudei em escola pública até o primeiro ano do ensino médio e, diferente dos seus tios, sempre quis muito estud...

32 dias - Mateo Velho

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Meu filho, Hoje o assunto é um pouco mais racional. Quero falar um pouco sobre o seu futuro. O mundo é um ambiente hostil. Já falamos sobre isso. Mas, no geral, ele também é bom, e eu já falei sobre os privilégios que temos. É justamente por isso que não podemos desperdiçá-los. Todos os dias estamos consumindo recursos e riquezas. E, quando falo em riqueza, não me refiro apenas a dinheiro ou ao fato de ser rico, mas a tudo aquilo que tem valor ou poder de troca. O papai e a mamãe, por exemplo, têm como riqueza o trabalho, o tempo e a cognição. Temos poucas reservas, ainda não o suficiente para atravessarmos a vida sem trabalho, pelo menos por enquanto. Há pessoas que possuem meios de produção, têm empresas, e nelas outras pessoas contribuem para a produção e geram excedentes, o que lhes permite proporcionar riqueza para outras pessoas. Outras, ainda, são apenas abastadas. Têm provisões e riquezas estocadas, ativos que podem ser consumidos ao longo do tempo, garantindo a vida enquant...

33 dias - Bicicleta

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 Meu filho, O mundo era bem diferente nos anos 80, quando o papai era criança. Não tínhamos computadores, nem celulares, nem controle remoto para a TV. Aliás, havia apenas quatro canais de televisão. Íamos para a escola e só reencontrávamos os coleguinhas no dia seguinte. Eventualmente, falávamos pelo telefone compartilhado, preso a um fio na parede, sempre com o risco de ter a conversa “interceptada”, não por um hacker habilidoso, mas pela bisa curiosa. Não havia videogames. Pelo menos, não na nossa casa. Não havia Instagram. Para ninguém. Os dois brinquedos mais populares eram a bola e a bicicleta. O papai, diferentemente dos titios, não tinha nenhuma intimidade com a bola, por mais que o vovô tentasse. Eu era muito alto, desengonçado, vivia me atrapalhando. Restou a “bici”, como chamávamos as bicicletas em Porto Alegre. Volta e meia eu ia com o vovô para o trabalho. Naquela época, o extinto Ginásio da Brigada Militar, onde ele trabalhava, era um grande playground para mim...

34 dias - Sonhada

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Meu filho, Deixa eu te falar sobre uma personagem que estará muito presente na tua vida. Já te contei, em alguma de nossas cartas, que a mãe da tua mãe foi embora muito cedo. Papai do Céu tinha outros planos para a vovó Valda, que, tenho certeza, está conosco agora, às voltas com os preparativos para o teu nascimento. Não sei bem se tenho o direito de contar a história da família da mamãe, ou a dela própria. Mesmo assim, vou me arriscar. Sei que ela mesma te contará tudo isso, antes mesmo de saberes ler. Alguns dizem que o lugar onde nasceram o vovô Joaquim e a vovó Valda é o paraíso. Um lugar onde, do alto, é possível olhar o horizonte até o ponto exato em que o mar e o céu, ambos azuis, se encontram numa linha delicada. Garopaba. Há ali uma amostra inteira da criação: mares revoltos e mares tranquilos; areia branca como a neve e rochas firmes; verde por todos os lados. Ainda há verde por lá! Há também o povo brasileiro do qual descendemos, portugueses, indígenas, africanos, eur...

35 dias - Sorrisos

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  Meu filho, Queria te falar sobre sorrisos. Ou sobre sorrir. Estávamos aqui olhando algumas fotos, e as melhores foram aquelas em que a fotógrafa flagrou a mamãe com o sorriso largo, daqueles que precisam de toda a boca, todos os dentes, toda a alma. Um sorriso que entrega tudo. Entrega um momento em que tudo está ali. Aqueles instantes que a gente tenta prolongar. Há muito tempo eu sei quando a mamãe está sorrindo, mesmo que eu esteja falando com ela apenas por uma ligação telefônica. Eu já sabia quando ela sorria quando ligávamos um para o outro, mesmo antes de sermos um do outro. Todos os dias, tento de alguma forma fazê-la sorrir. Não apenas por ela, mas por mim. É uma espécie de carga rápida. Enquanto isso, aqui em casa, pensando sobre o sorriso da mamãe, a vovó mandou algumas fotos antigas. Muito antigas. Nelas, o papai tinha uns dois ou três anos. E sabe o que havia em uma dessas fotos? O sorriso da vovó. Um sorriso assim, largo, com a boca toda, todos os dentes...

36 dias - Aprendizado

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Meu filho, Não saiba de tudo. Melhor ainda, nem tente saber de tudo. Mas saiba muito. Saiba tanto quanto puder sobre tudo o que desejares e precisares. Sim, porque haverá conhecimentos que tu precisarás aprender, ainda que não queiras. Ainda assim, será pouco. E é importante que saibas disso. Por mais que aprendas, sempre saberás muito pouco. Se eu tivesse que definir o que sei, diria que conheço apenas uma gota num oceano de ignorância. E olha que eu nem me considero tão ignorante assim. Haverá inúmeras coisas inexplicáveis. Camadas e mais camadas de conhecimento, de entendimento e de percepção da realidade, inclusive daquela que parece simples aos nossos sentidos. Em algum ponto, será preciso aceitar o desconhecido como uma fronteira intransponível. Aquilo que a mamãe e eu tentaremos te ensinar, aquilo que a escola, os livros, a internet e as inteligências artificiais tentarem te ensinar, nada disso é muito. Entende tudo isso apenas como sendo o básico. E não te satisfaças com o bási...

37 dias - É hoje!

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Meu filho, A mamãe me ligou agora! — Vem, ele está nascendo! Eu estou no meio de uma reunião tensa com um cliente que atendemos no Brasil inteiro, tentando resolver situações que, na maioria das vezes, estão além do meu alcance. (Por sorte, tenho uma equipe incrível.) Eu havia combinado com ela que, nestes últimos dias, atenderia qualquer ligação. Atendi. Só não fechei a câmera do computador — a reunião era online — e as pessoas viram apenas eu me levantar às pressas, deixando na tela um enquadramento nada nobre das minhas braguilhas enquanto eu me mexia de um lado para o outro. Voltei para a frente do monitor, cheguei bem perto da câmera e disse apenas: — Pessoal, me desculpem. Meu filho vai nascer. Preciso sair. Alguém assume a reunião. Não sei quem assumiu. Não sei quem ficou. Apertei o botão de shutdown do computador, peguei as chaves do carro e corri. Foi então que me dei conta: eu não sabia exatamente para onde ir. Ligo para a tua mãe. Meu Deus… não tem sinal na gara...

38 dias - Estou atrasado

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Meu filho, Não é fácil para ninguém reconhecer os próprios erros. Ninguém. "Por que você olha para o cisco no olho do teu irmão e não percebe a trave no seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho', se você não vê a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão."  - Lc 6, 41-42 O evangelho — aqui nas palavras de São Lucas — apenas revela algo que já sabemos há muito tempo: reconhecer-se como falho é um dos maiores desafios humanos. E não é só dificuldade emocional. É um mecanismo de defesa. É sobrevivência. Pensa comigo: imagina viver todos os dias com uma pessoa cheia de defeitos; uma pessoa chata, ranzinza, rasa; ou então fútil, supérflua; ou o oposto, alguém tão profundo que nunca sai do lugar; alguém feio demais aos próprios olhos, ou narcisista demais; alguém autoritário ou submisso; arrogante ou simplório; egoí...

39 dias - Chá de Fraldas

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  Meu filho, Deixa eu te contar: no sábado, lá em casa, finalmente recebemos nossa família e nossos amigos para o teu Chá de Fraldas. Eu já tinha te dito, dias atrás, que a mamãe estava às voltas com o planejamento e a organização desse encontro. A ideia inicial desse tipo de evento é angariar fraldas e ajudar a família nos primeiros dias do novo integrante. Mas nada disso. O que realmente fizemos foi celebrar e compartilhar a nossa felicidade — abrir a casa, abraçar quem nos quer bem. E, claro, recebemos muitas fraldas e mimos que demonstram o carinho que tanta gente já sente por ti. Dividimos os salões lá do prédio: os homens em um, as mulheres em outro. Aqui no nosso, só balbúrdia, cerveja e conversas soltas. Lá no delas… bem, lá é com a mamãe: brincadeiras, jogos, brindes, atividades que eu reconheci do planejamento que acompanhei de perto. Vieram amigos de longe, que viajaram horas para estar conosco e voltar no mesmo dia. Vieram amigos de perto, para quem bastou pegar o eleva...